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Kurpu di Mundu

Kurpu di Mundu

Kurpu di Mundu foi o primeiro bailado para o qual compus sonoplastia. Em colaboração com Pedro Ramos, diretor artístico, bailarino e coreógrafo da Ordem do Ó.

Tenho um especial carinho por esta criação por diversas razões:

  1. foi o meu primeiro contacto "profissional" com a Ordem do Ó, sendo fã e amigo do Pedro desde há alguns anos. Desta forma, marcou o início de uma colaboração artística profícua, e que se mantém até à data em que escrevo esta entrada. O Pedro é uma pessoa profundamente inspiradora e que vive numa parte do ciclo de Samsara que é tangente ao meu, mas que também já tem um pé em algo espiritual.
  2. o primeiro contacto que tive em pessoa com o Pedro foi anos antes deste espetáculo na Guiné-Bissau, onde colaborámos num outro projeto intitulado Ur-GENTE. Simplificando, foi um projeto onde diversos artistas portugueses se dirigiram a Bissau a fim de ajudar a capacitar artistas locais para criarem, manterem e desenvolverem programação para um centro artístico multidisciplinar. Muito haveria para dizer sobre o que vivenciámos lá e as pessoas que conhecemos, mas resta-me frisar que desse contacto nasceu a colaboração entre o Pedro e o Ernesto Nambera, e desse diálogo intercultural nasceu o Kurpu di Mundo.
  3. foi a primeira oportunidade de desenvolver música que seria usada num contexto onde eu não tocava, e com os ouvidos da dança, não da música.

Tentei manter ao máximo as próprias vozes dos bailarinos na sonoplastia, e criar uma ponte entre aquilo que é corporal, telúrico e táctil para o meio da eletrónica. Esta tendência manteve-se, de diferentes formas, ao longo de todas as minhas outras colaborações com a Ordem do Ó. O uso de gravações dos artistas em ensaio, para alimentar a futura exploração acústica é um tipo de endogamia recursiva que me apela, e que tento manter ativo em diversas formas. Mas também como as outras criações que tenho feito, tento manter sempre algo de novo em cada uma. De qualquer das formas, as raízes do meu estilo de composição pessoal estão latentes nesta obra, e deixo alguns excertos que me apelam mais no fundo desta página.

Canção

Esta música foi a primeira que concluí, com recurso a gravações "trabalhadas" das vozes dos bailarinos num determinado ensaio. Achei que todas as músicas deveriam ter algo daquilo que era a essência criativa dos artistas, e esta canção foi o melhor ponto de partida que poderia desejar

Reich

Uma clara homenagem a Steve Reich e à influência que teve em mim. Também uma oportunidade de misturar ritmos que nasceram durante um dos ensaios com uma abordagem de composição mais "tradicional". Também enquadrou aquilo que são momentos surpreendentemente raros nestas sonoplastias, que é o ritmo puro e sincronizado com dança.

Palavras

O uso da voz falada é um leitmotif em tudo aquilo que faço no que toca a sonoplastia. Fascina-me o poder musical que existe na palavra sem conteúdo semântico, ou com este distorcido. Assim, acabo por pedir recorrentemente aos bailarinos para gravarem pedaços de texto, os quais eu tenho imenso gozo em distorcer até se tornarem nuvens de som.